Tantas vezes saio por essa estrada fora a pé ou de bicicleta e sei que estou a pôr em risco a minha vida. De bicicleta, nem se fala. Saio de casa, sem saber se voltarei inteira.
E esta é a verdade.
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A estrada é de todos e só quem não ama a vida humana e não sente respeito por ela, conduz de forma criminosa, a acelerar sem se distanciar minimamente de quem tem o direito de usar a bicicleta pelas estradas e caminhos deste país.
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Escrevo-vos isto hoje, depois de ter recebido do meu irmão a notícia abaixo. Quase diariamente, o meu irmão percorre as estradas do Sotavento algarvio, na sua bicicleta. No domingo, alguns dos seus companheiros e famílias foram assolados por uma tragédia.
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Não acredito que quem cometeu este crime, o tenha feito de forma intencional. Acredito sim, que muitos de nós conduzem estas armas poderosas e potenciais assassinas, muitas vezes em piloto automático. Ou a olhar para a paisagem, ou a falar ao telemóvel, ou a olhar para os miúdos que vão lá atrás sentados. Minha gente, isso é conduzir em pura negligência.
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No entanto, muitos outros há que conduzem com sério desprezo por quem usa uma pequena parcela da estrada, à sua esquerda. Muitos há que julgam que, nos dias de hoje onde se vive a velocidade estonteante, as estradas são um espaço exclusivo para os poderosos das máquinas da velocidade. Ali não há lugar para os meios de transporte mais lentos, e por isso muitas vezes nem se dignam a afastar-se ligeiros centímetros da sua rota, porque simplesmente acham que essa não é a sua obrigação e que os outros não têm o direito de ali estar, na sua pista.
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Triste, não é? Mas ainda tenho esperança. Esperança de nunca acabar estendida numa estrada, e esperança que muitos comecem a pensar mais nos outros e a conduzir com mais responsabilidade e respeito pela vida humana.
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Sempre que pego no meu carro, faço-o com muita atenção, porque sei que também eu não estou a imune a acidentes. Mas mantenho-me constantemente alerta, porque de certeza que tirar a vida a alguém inocente deve ser do mais terrível que nos pode acontecer.
Leiam a notícia e pensem. Esta realidade é uma probabilidade para todos nós. Há que estar atento.
2007-08-13Olhão: Do acidente resultou ainda um ferido
Embate na EN125 tira a vida a ciclista
Todos os domingos um grupo de amigos de Bias, próximo de Olhão, costuma dar uma volta de bicicleta. Mas ontem o passeio – que ainda mal havia começado – teve um desfecho trágico com a morte de um dos ciclistas e ferimentos num outro. Os dois foram atingidos por um carro na Estrada Nacional 125.
Os cinco amigos partiram de Bias – localidade à beira da EN125 – pelas 09h00. Tinham como destino Olhão, onde os esperavam mais alguns companheiros do pedal. Só que, mal se fizeram à estrada, houve um que furou o pneu da bicicleta. Dois colegas pararam para ajudá-lo. Dois outros optaram por não sair das bicicletas, andando para trás e para a frente, à espera dos companheiros.Um deles era Rogério Arraias, de 62 anos, mais conhecido por ‘Sandokan’. Antigo funcionário do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, Rogério estava já há alguns anos reformado e era um amante do desporto, praticando atletismo, ioga e ciclismo. Percorreu algumas centenas de metros em direcção a Olhão e depois regressou em direcção a Bias.Estava a poucas centenas de metros de casa quando sofreu o embate de um carro – um Volkswagen Golf – que seguia no mesmo sentido. Rogério Arraias, cuja bicicleta ficou destruída, foi atingido pela parte da frente do automóvel e teve morte praticamente imediata. O corpo esteve duas horas na estrada até ser removido. O ciclista que seguia com ele, de 49 anos, teve mais sorte, embora tenha ficado ferido.
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"ELE SÓ DIZIA QUE NÃO OS VIRA"
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Luís Godinho era um dos elementos do grupo de ciclistas. Ficara para trás a ajudar um colega que furara um pneu da bicicleta quando se deu o acidente, pelo que não viu o que aconteceu. Foi avisado pouco depois do sucedido por um automobilista e dirigiu-se para o local. Deparou com o colega estendido no chão. Não dava sinais de vida, apesar de não aparentar grandes ferimentos externos. “Não sei... Talvez tenha partido o pescoço”, refere o ciclista. O condutor do carro – um português em férias, que seguia com a mulher e dois filhos para a praia – encontrava-se em estado de choque. “Ele só dizia ‘eu não os vi. Só me apercebi quando se deu o choque’”, conta Luís Godinho.
José Carlos Eusébio












